domingo, 21 de junho de 2020

Trágico e Belo



Há algo de verdadeiramente trágico e simultaneamente belo, no facto de se gostar de alguém e não ser correspondido.

Trágico porque são sentimentos que temos cá dentro, mas sem retorno, ou pelo menos não na mesma dosagem, da mesma forma e feitio, e no mesmo tempo. Crescemos a ouvir histórias com finais felizes e conforme a idade vai passando – a realidade bate-nos na cara – mas há bocadinhos de nós que ainda acreditam e se prendem àquela ideia inicial, à coisa romantizada, às mãos dadas até ao final, ao olhar sempre nos olhos, ao beijo a despertar, aos abraços a qualquer momento, às trocas de olhares, aos suspiros, aos silêncios.

No entanto, ter sentimentos é das coisas mais Belas que existem. Gostar de alguém é também gostarmos de nós com a pessoa da nossa estima, é sermos melhores com ela, e é sobretudo, querer ser melhor.

Para essa pessoa.

No entanto quem ganha somos nós, porque - ainda que ligeiramente apaixonados – esse sentimento transforma a nossa vida e tudo é mais bonito, tudo nos parece possível e sem perceber nós já somos melhores! Floresce algo nesse momento, qual primavera tardia, que nos faz sorrir, e acima de tudo faz-nos acreditar que ainda é possível, ainda conseguimos...

Ter sentimentos.

Não é fácil gostar de alguém, e não sermos correspondidos. Mas o pior que nos pode acontecer, é sermos incapazes de ...

Gostar ( a sério )

Amor também é sofrimento. Sofrer por amor, ou falta de amor faz parte. Ainda que os relacionamentos sejam mais rápidos e mais levianos, alguns de nós ainda acreditam.

E isso é simplesmente maravilhoso.


terça-feira, 27 de março de 2012

Desentorpecer

O reconhecido psiquiatra Enrique Rojas, escreveu no "El Mundo", que há sombras surpreendentes na cultura ocidental, de um lado o materialismo, onde só conta o que é tangível, o que se toca, o que se vê e se consome. Junto com o materialismo o hedonismo sempre insatisfeito, a terminar em fenómenos de ansiedade. A permissividade, que tudo quer experimentar e está a par de um relativismo em que tudo pode ser justificado. Daqui, surge um novo humano repleto de coisas mas vazio interiormente e como consequência assistimos a atitudes de especial melancolia e indiferença. Dá-se um salto para a desumanização. Diz Rojas, que nunca ao longo da História nos havíamos preocupado tanto com o humano e por sua vez nunca como agora, este esteve tão esquecido, tão coisificado, tão reduzido a objecto.
 
As forças vivas da sociedade têm evocado a Escola e continuam a evocar a Escola como reduto de salvação, reconversão e reconstrução de uma nova geração, de um novo paradigma e civilização. Porém, os factos recentes, o sentir das dinâmicas educativas é também de desamparo, desmotivação e incoerência. As instituições, onde vivem a maior parte do tempo dos nossos jovens, são tal como os valores vigentes das suas comunidades, estruturas fechadas, padronizadas, burocráticas e alimentadas por concepções tecnicistas, que pouco privilegiam o pensamento filosófico, artístico e ético. As disciplinas, as áreas do saber, os conteúdos que mais trabalham ou poderiam desenvolver competências humanas e cívicas, o carácter, a sensibilidade e empatia são diluídas por rankings e estatísticas estéreis do sucesso/insucesso educativo. Há fortes e graves incongruências entre as prioridades quotidianas de uma Escola e a consciência de um caminho progressista para as nossas vidas e as vidas de todos os que coexistem neste planeta.

As famílias, que não prestaram provas de poderem acompanhar e educar uma criança, demonstram (apesar de bem intencionadas), uma impotência e muitas vezes negligência no processo de desenvolvimento dos seus filhos e filhas, que como estes, apresentam tantas vezes comportamentos de imaturidade e desresponsabilização. É viver num estado dormente, alienado e depressivo resultado do pouco entendimento que cada um tem de si próprio e do lugar onde coabita. Os nossos conterrâneos não estão felizes, sendo que a felicidade não se cria por formulários, pelo que se acumula, pelo que se ostenta. A felicidade é uma frágil arte da sabedoria, é a atenção a um despertar interior que se ramifica por cada decisão harmoniosa que tomamos.

A cultura, a arte, a literatura, o pensamento têm tudo para germinar e fazer enobrecer as comunidades. A cultura, tem sido perspectivada no nosso país como um domínio paralelo, desligado das nossas vivências e um sector estratégico com deficitário investimento. Esquecemo-nos frequentemente como somos uma espécie cultural, que se recria por princípios e valores de respeito e conhecimento. Que enquanto espécie gregária, consciente e criativa só florescemos de dentro para fora, a partir de uma vivência estética, simbólica e espiritual. A educação artística de qualidade é emancipadora, não apenas pela resposta que dá às necessidades estéticas, expressivas e de inovação mas porque é alicerce à construção do ideal humano e daquilo que é essência, beleza e espírito. O conhecimento inerente à formação artística redefine com frescura, novas percepções da realidade e novos reposicionamentos perante desafios evolutivos.
 
 
Laíz Vieira
Março de 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fazer as pazes, texto de MEC

Para fazer as pazes é preciso haver uma guerra. Mas, quando não há uma guerra ou só a suspeita, ou ciúme, de haver uma ameaça, ou uma desatenção, de a paz que encanta e apaixona, se tornar num hábito, as pazes ficam feitas e celebra-se essa felicidade.
O conflito e a diferença de personalidades - a identidade pessoal de cada um e quanto estamos dispostos a sacrificarmo-nos por defendê-la - são grossamente exagerados. É a necessidade de se achar que se é diferente - nos afectos, nas necessidades - que provoca todos os mal-entendidos e a maior parte das infelicidades.
Muito ganharíamos - se perdêssemos só o que temos de perder e amargar -, se partíssemos do princípio que somos todos iguais, homens e mulheres, eu e tu, eles e nós. E que é o pouco que nos diferencia e distancia, por muito caro que nos saia, que consegue o milagre de tornarmo-nos mais atraentes uns aos outros.
As guerras imaginadas são mil vezes melhores do que as verdadeiras. A ilusão da diferença (de personalidades, sexos, sexualidades, culturas - e tudo o mais que arranjamos para chegar à ficção vaidosa que cada um é como é) passou a ser o que apreciamos ser a nossa nociva e dispensável individualidade.
A melhor maneira - a única - de fazer as pazes é reconhecer que não houve guerra. Vale apenas o pressentimento humilde e paranóico de um vago desejo, da parte das duas partes amadas, de exprimirem hostilidades, por muito indesejadas e inexistentes. Que nem isso foram.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (1 Jul 2011)'


A Felicidade é uma Interrupção de Futilidade, texto de Miguel Esteves Cardoso

É nas decisões fúteis, das quais nem a vida nem o estado de espírito depende, que reside a felicidade.
São estes os dias felizes, que Beckett invoca e amaldiçoa, por terem passado, na peça que tem o mesmo nome. Somos sobressaltados por ninharias, que conseguem fazer-se passar por importantes, como escolher entre uma camisa do verde do mar ou do azul do céu.
As decisões fúteis, quando a cabeça é desocupada daquilo que a preocupa, para se ocupar de uma ninharia, como decidir entre o ruivo ou o rascasso ou entre a pêra -pérola e a carapinheira, são o indício seguro da felicidade. Se a escolha primária é entre continuar a viver e deixar de viver e as escolhas secundárias são afluentes da primeira, devemos dar graças.
São uma sorte temporária e alegre a oportunidade e a ocupação mental que nos permitem pensar mais naquilo que nos interessa, sem interessar, do que naquilo que nos deveria interessar, caso estivéssemos tão aflitos que não conseguíssemos pensar noutra coisa senão sobreviver.
Quanto mais tempo perdermos nas escolhas e nas questões de que não dependem as nossas vidas ou as nossas almas - naquelas que não interessam, a bem ver, nem a umas nem a outras - maior é a nossa felicidade.
O luxo é não escolher. A felicidade é uma interrupção de futilidade. A felicidade é uma falta de importância.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (26 Jul 2011)'


Quando nos apaixonamos . texto de Miguel Esteves Cardoso

Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me.

Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distracção vivermos assim. Com tanta sorte.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (14 Fev 2012)'

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Reflexão de final de semana



Neste dia frio de Inverno, apetece-me voltar. Ao Blog. Para falar , desabafar, dizer o que me vai na alma, reclamar, chorar, entristecer.
Sou uma alma amargurada, vazia e seca. Sou uma angustiada, como mulher , como útero, como ser humano. Ninguém consegue perceber as minhas angústias como pessoa. Ultrapassam-me , e ultrapassam quem me rodeia. Julgam-me feliz, bem casada. Pensam em mim e acham que não tive filhos por opção - as mesma pessoas que acham que casar é que interessa , o resto vem com isso. Ou não vem - que sabem as pessoas de mim? Nada. Ninguém me conhece, que pena. Um dia ninguém vai chorar a minha morte, nem sentir a minha falta. Ninguém consegue perceber as angústias que me invadem e me ferem sem dó nem piedade. Gostava de ser como as outras mulheres que essas sim, são felizes, não têm marido mas tiveram e pariram e sentiram dores reais, físicas. Ou então como as outras, gostava de ser como as outras que têm toda a atenção e toda a paciência daquele que ma devia dar a mim, por direito. Eu sinto as dores imaginárias de uma quase mulher feliz, de uma quase mãe, de uma quase maluca e tresloucada-que-precisa-de-tratamento.
Não tenho direitos, não tenho casa a-casa-é-minha-eu-é-que-mando, sou como uma amante escondida, fechada,limitada. Tenho marido e um corpo presente ao meu lado na cama, às vezes frio. Não tenho nada, nem sequer me tenho a mim.

quarta-feira, 23 de março de 2011

The Doors - Gloria (60s) No One Here Gets Out Alive


Yeah, right.
Did you hear about my baby? She come around,
She come round here, her head to the ground?
Come round here just about midnight,
She makes me feel so good, make me feel all right.
She come round my street, now
She come to my house
Knock upon my door
Climbing up my stairs--one, two, three
Come on baby
Here she is in my room, oh boy
Hey what's your name?
How old are you?
Where'd you go to school?
Well, now that we know each other a little bit better,
Why don't you come over here and make me feel all right!
Chorus: Gloria--g-l-o-r-i-a
Gloria--g-l-o-r-i-a
Gloria--g-l-o-r-i-a
Gloria--g-l-o-r-i-a
You were my queen and I was your fool,
Riding home after school.
You took me home
To your house.
Your father's at work,
Your mama's out shopping around.
Check me into your room.
Show me your thing.
Why'd you do it baby?
Getting softer--slow it down, etc.
Now you show me your thing.
Wrap your legs around my neck,
Wrap your arms around my feet,
Wrap your hair around my skin.
I'm gonna huh--all right, ok, yeah.
It's getting harder--It's getting too darn fast, etc.
Come on, now, let's get it on.
Too late, too late, too late, too late, too late,
Make me feel all right!
Chorus
Keep the whole thing going, baby!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Florbela (sempre)

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Uma vez

Uma vez disse-te que não havia nada que não fizesse por ti. Naquele momento desconhecia o verdadeiro impacto dessas palavras, o que isso provocaria em mim .
Hoje sei. Continuo a achar que faria tudo por ti,por nós, por essa coisa que nos une a que chamámos com toda a pompa paixão e amor, mas sinto-me mais crua, mais desfalecida e desprotegida.
Fazer tudo por ti quando não me é confortável, roi-me os ossos, aperta-me a carne, fatiga-me. Sei-o agora. Depois.